Em março de 2101 o ar vai acabar. Não sei exatamente o que pensar sobre isso. A maioria vai morrer antes disso, mas escondi alguns tanques para nós. O ar acabaria há quatro meses, na verdade. Encontramos um grato estoque de oxigênio, o suficiente para mais alguns meses a mais, então, de certa forma, é justo que a gente possa viver um pouco mais por conta disso. Também estamos enxergando com clareza que nossa sobrevida tem prazo de validade: vamos morrer em oito meses, mais ou menos. É meio triste. Esse é o melhor momento em nosso acampamento, as coisas estão finalmente boas, estamos onde eu sempre quis estar. Queria que as coisas sempre tivessem sido assim, mas também entendo que somente são como são por conta de tudo o que ocorreu. O Acampamento ter esvaziado nos deixou menos capacitados para lidar com os Coisas, mas descobrimos que um número menor de pessoas bem estruturado funciona melhor do que uma frente de sobreviventes fortemente munida, mas completamente incoerente entre si. É provável que quem continuasse com o povo do Bunker teria a certeza de uma vida prolongada, mas quem escolheu ficar, escolheu por um motivo. Depois da Cisão, escolhi que ficariamos esquecidos, e eles não discordaram. Alguns Abatedores ainda possuem relações com o povo do Bunker, mas não intervenho. Nada queremos deles. E nada foge da memória, é claro. O rancor do povo do Bunker sempre se mostra como uma ameaça. Esperamos que o silêncio e nossa política de afastamento seja o suficiente para que eles não se voltem contra nós. São, como já disse, fortemente munidos. Nosso povo, por outro lado, tem afeto. E ainda que não nos proteja contra a ira de ninguém, faz dessa vida algo menos miserável. Os Coisas, o povo do Bunker, o ar -- vamos morrer de qualquer jeito. Sendo assim, vamos viver: já que vamos morrer em breve, que seja felizes pela escolha que tomamos. Nosso pequeno acampamento permanecerá unido até o fim. A vida hoje faz sentido. Março de 2101 será difícil.