Sobre Desistir

Há alguns meses eu li Memórias do Subsolo, excelente livro de Dostoiévski. Absolutamente não fui atrás de esclarecer qual o vínculo desse livro com as origens da psicanálise, tampouco fui atrás de leituras psicanalíticas que visassem explicar o discurso do protagonista dentro dos conceitos do dialeto psicanalítico. Como em muitas coisas da minha vida, preferi me ater ao sentimento do que à elaboração. Havia sentimento de psicanálise ali, mas o trabalho árduo de elaborar as minúcias da sensação eu preferi deixar de lado. E se não há algo psicanalítico per se nesse desfecho, há pelo menos algo que diz muito respeito a algo de mim e que, portanto, já que sou atravessado pela linguagem e pela história da minha vida, é consequentemente psicanalítico. Atrasar a chegada ao ponto principal deste texto talvez seja também algo psicanalítico. Ou talvez nada seja psicanalítico e as coisas só sejam. Quando tudo é algo, algo não é nada. O não-ser também é bem psicanalítico. Nada disso importa.

O subsolo. Sim. Um trecho em específico desse livro me marcou. Muitos outros me marcaram, mas não o suficiente para permanecer. O muro, esse sim ficou. Na verdade, já estava na minha frente, mas eu não era capaz de enxergá-lo — de nomeá-lo. Foi o que ficou: um muro que representa aquilo que não é possível contestar. Leis da natureza, o impossível, o inevitável. Aquilo que normalmente leva os homens diretos e de ação a esbarrar, colidir e aceitar. “O homem autêntico, normal, como o sonhou a própria mãe carinhosa, a natureza, ao criá-lo amorosamente sobre a terra”, para quem o “muro tem [...] alguma coisa que acalma; é algo que, do ponto de vista moral, encerra uma solução”, em contraste com o homem do pensamento, o “homem de consciência hipertrofiada, o homem saído, naturalmente, não do seio da natureza, mas de uma retorta”, que de tanto contorcimento e amargura torna-se um camundongo, um inseto: enxerga o muro do impossível e não o aceita, esforça-se com toda a sua energia, dor e sofrimento para o contornar. Faz de tudo, menos se conformar! Planeja os mais elaborados e complexos planos e rearranja seus pensamentos em infinitas torções para que não tenha que se haver com o muro em sua frente.

O impossível. Muro de pedra que não se pode ultrapassar. É simples assim: não se pode. “Bem, mas e se…” Não. Não pode. É justamente o impossível. Muralha que projeta sombra sobre o homem que se contorce em raiva, agonia e dor, que se diminui a cada tentativa a ponto de se perceber como uma pequena poeira em frente ao muro infinito. O muro, entretanto, não aumentou. É o mesmo muro. Está posto e não se modifica. Ele espera a colisão dos homens para que eles sofram a breve dor, retornem e busquem um outro caminho – não o contorno ao muro, apenas a aceitação de que existem determinadas coisas que são impossíveis. Esse muro não é escalável, mas o homem-camundongo-inseto-poeira-ácaro-átomo insiste em se contorcer e evocar palavras de lamúria e agonia, repensar o mundo ao seu redor para que ele encaixe o muro em sua fantasia. Homem que se aproveita do muro para não ter que lidar com o fato de que é preciso voltar, num contínuo de dor e prazer experimentado da posição de não-movimento que envolve a recusa do aceitar.

E ele está lá. E o que quero aqui? Quero falar de um significante de minha história: tentar. Significante de dois polos que se alternam em inclinação a mim, tal como um planeta em rotação e translação ao redor de seu sol – o que é um excelente comentário, aliás. Vocês não sabem, mas o sol é outro significante com grande presença em minha vida. Não vou falar desse não, ainda que já tenha falado. Que tanto tenho que falar de mim para você? Quero falar do tentar, apenas do tentar. Que num extremo implica a beleza do movimento – e que lindo é se movimentar. O combustível que queima em direção a um objetivo. No outro, o limbo. Pois quem tenta certamente não conseguiu, embora também não esteja em definitivo no campo da falha. É possível que tenha ocupado essa posição em algum momento, mas quem tenta ainda não se acomodou em tal espaço. Tentar é, enfim, um purgatório, e Deus não deseja intervir. Estamos sozinhos em nossas próprias jornadas e às vezes o objetivo está para além do muro de pedra.

Eis, então, que convido meu eu de agora a revisitar o meu eu de alguns meses atrás. Descubro agora que esse texto é isso: um diálogo a dois onde você é um intruso. Talvez seja uma conversa muito alta em uma mesa de um refeitório. Por que você está só nesse restaurante? Se é pra se tornar um personagem, é bom que pense no que você está fazendo aqui. Talvez não seja preciso – agora estou falando com você, o que talvez signifique que você não é mais um intruso. Talvez eu não tenha lhe oferecido uma cadeira, mas você tenha sido notado. Quem mandou ficar encarando a conversa de duas pessoas?

Que falam essas duas crianças de barba? Sobre desistir. Tem um livro com esse nome que eu não li e que se encontra junto a todos os outros livros que foram comprados e não lidos, postos todos na prateleira das coisas não feitas, metodicamente planejadas e convenientemente não priorizadas, que definitivamente coloca o espírito mais aqui do que no entre-mundos do tentar. Também descubro que esse texto é outra coisa: uma procrastinação. Cabe a mim respirar fundo e retornar. Onde estávamos? Desistir.

Passo a passo para conseguir alguma coisa. Primeiro passo: desistir. Mas é preciso que se desista, e não que se “desista”. “Desistir” é ainda tentar, mas repetindo para si que não se está tentando. É andar de olhos fechados, mas com um semiaberto, aberto só o suficiente para não ser percebido pelo outro. E também não pode ser um DESISTIR e nem um desistir…, tem que ser só desistir. Simples e objetivo. Não vou me esforçar para que você diferencie esses termos, mas são os tons que uso na história que me conto.

É preciso que o rato pare de se enganar. É preciso que ele pare de repetir para si mesmo que é corajoso e sagaz e que encontrará um jeito de conseguir a qualquer custo. É preciso que ele tenha a verdadeira coragem que é justamente aquela que ele insiste em ignorar – a coragem suprema e absoluta, a que ofertará menos gozo e mais orgasmo, a coragem de admitir que não dá mais, e que não tem nada a ver com competência ou esforço, é apenas um muro! Que delicioso é o momento em que o inseto retoma sua altura humana, olha para o muro e decide que é hora de investir. Voluntariamente acerta uma cabeçada tão bem dada que não há outro desfecho senão cair no chão e sangrar até a morte. E daí vem aquele prazer, prazer muito, muito superior ao outro! Esse prazer que não vem da insistência em tentar e falhar, mas sim do alívio de entender que combustível algum levará esse carro para além desse caminho. Respiro, que respiro! Que alívio! Não é preciso mais tentar. Acabou. Que delícia é a dor de uma cabeçada na parede. Esse é o problema do homem do subsolo: às vezes é preciso desistir.

…E o que vem depois? Deus vai abençoar com o prêmio? Parabéns, você desistiu. Você finalmente entendeu. Tome, foi muito divertido assistir o seu sofrimento e angústia, agora você vai ser recompensado. …Não. Ou sim? Provavelmente não, embora alguém vá atribuir a Ele, sim. Eu vejo duas outras saídas para essa pergunta. A primeira vem de um ato de desresponsabilização, pois eu que não vou me responsabilizar pela desistência alheia (e se estou falando pra mim, estou falando que eu não vou me responsabilizar pela minha desistência?... [Algumas coisas só são] {Algumas coisas só não são}). A segunda é a que mais me apetece e não necessariamente está desvinculada da primeira.

Desfecho um. Talvez desistir não lhe leve nem um pouco próximo ao que em algum momento você quis. Talvez não haja recompensa, não haja Céu, não haja ouro e o futuro seja se alimentar de pão dormido em um canto qualquer. Será, entretanto, um pão muito bem apreciado, porque não há mais o que se tentar. Que delícia pode ser o pão às vezes.

Desfecho dois. O muro até está lá, mas como você não está prestando atenção nele, ele deixa de ser um problema. Você se torna um dos homens comuns. O muro encerrou uma solução. Você sofreu, morreu e ressuscitou. Voltou e foi caminhar por outros caminhos. E aqui o desfecho se divide em dois subdesfechos. 2.1, caminhar por outros caminhos mostrou que há outros horizontes e aquilo que tanto você queria alcançar deixa de existir, pois novos objetivos surgiram – esperançosamente, pela nova perspectiva adquirida, objetivos possíveis, que não visem ultrapassar os outros muros que existem por aí. 2.2, se distrair por outros caminhos lhe leva a alcançar o que se desejava por outras vias. Ao viver outras coisas, aquilo que se deseja pode se mostrar como possibilidade. Quando se afasta do muro, talvez se perceba que aquilo que se procura não estava por ali, como outrora se achava. “Você sabe que quanto mais perto está de algo, mais difícil é de enxergar”. Essa é uma frase de uma abertura de Naruto Shippuden, mas também é uma analogia presente no Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, e em tantas outras obras que existem por aí. É uma boa frase.

Às vezes, insistir em escrever um livro que não vai para lugar nenhum pode gerar apenas resultados negativos. Parar de escrever e caminhar na natureza pode justamente trazer a inspiração necessária, a resposta para um impasse. Se engajar em uma nova atividade pode inclusive revelar que o que se quer não é escrever, mas sim dançar hip-hop. Às vezes, rasgar o maldito livro, tirar um tempo afastado e recomeçar do zero traz justamente um resultado muito mais gostoso para o escritor. Às vezes a incessante busca pelo amor, por reconhecimento, a busca por dinheiro, a busca por saúde… Tudo pode ser (possivelmente) alcançado quando se muda o caminho. Ou não! E não alcançar pode ser igualmente bom!

Desistir, no fim do dia, não deixa de ser um tentar, mas é um tentar bem diferente. Quando você “desiste” e segue tentando, não se sai da sombra do muro. Quando você desiste e vai caminhar por qualquer outro caminho, a vida acontece, seja lá o que ela for. DESISTIR não é bem vindo: é preciso que haja o desejo. Aqui, quando falo de desistir, falo em se permitir ter diferentes objetos de desejo, investir libido em diferentes possibilidades e deixar que a vida aconteça. Abdicar desse sofrimento que gera prazer, abdicar da amargura, abdicar do contorcer. Respirar fundo, relaxar os ombros e ir fazer qualquer outra coisa, não para garantir o alcance do que se quer, mas só porque a vida é curta e se tem tantas outras coisas pra fazer por aí. Vai fazer outra coisa, fi. E, se quiser, dê uma cabeçada no muro antes. É bem bom.

Consegui?